Juiz Federal da 3a Turma Recursal do Paraná. Doutor em Direito da Seguridade Social (USP). Coordenador da Pós-Graduação em Direito Previdenciário e Processual Previdenciário da ESMAFE-PR. Presidente de Honra do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário - IBDP. Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica da UNIVALI.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A eleição, o prêmio de Balaão e os novos salteadores do templo


Vendo o programa eleitoral, não pude deixar de compartilhar meu pensamento, pois ainda impressionado com o número de pastores, irmãos e amigos de irmãos e pastores candidatos a cargos em todas as esferas. 

A igreja, a incorruptível Noiva de Cristo, vem se transformando em um verdadeiro curral eleitoral de homens que se apresentam, nada modestamente, como candidatos de Deus, os quais, sob as mais diversas desculpas, reclamam votos de “seus fiéis”. 
Segundo proclamam, a presença de um líder cristão no Poder Legislativo é imprescindível para combater propostas legislativas contrárias à vontade de Deus e à sua igreja, garantir o direito de liberdade de culto, e eliminar a corrupção instalada nas casas legislativas. 

Porém, a crise de referência ou de legitimidade não ronda apenas o domínio político. Percebam os “candidatos de Deus” ou não, o que está em jogo é o prêmio de Balaão, histórico caso de um profeta do Antigo Testamento que pretendia abandonar o povo de Deus seduzido pelo ideal de poder político e de riquezas. “Ai deles!”, diz a Escritura Sagrada (Epístola de Judas, 1:11), pois se entregaram ao mesmo erro. Usam os templos como os mercadores que foram enxotados por Cristo. Transformam a casa de oração em covil de ladrões, os altares sagrados em palanques políticos, seus sermões em discursos, e os crentes em um mero instrumento eleitoral. 

Apascentando-se a si mesmos, exploram a ingenuidade dos simples de coração, escudados no mito de que dominam “a verdade”. Depois de tudo voltam: alguns tais como o filho pródigo, flagrados em escândalos diversos, alguns outros novamente sedentos, deslumbrados com os holofotes e honrarias de homens, apostando mais uma vez na filosofia da esperteza e da força, no infalível esquema humano arquitetado no seio da igreja. Fica assim em segundo plano sua missão fundamental de pregar o evangelho aos humildes, cuidar das ovelhas de que darão conta e, principalmente, zelar pela sua própria alma. 

Como disse Paulo aos Coríntios, lembrando que nem tudo cabe na Igreja, “um pouco de fermento faz levedar toda a massa”. O artifício humano de eleição em nome de Deus destrói a reputação da igreja, a sua credibilidade, seu ensino e, por isso, tem de ser discutido.  

As manifestações de grande poder de Deus não ocorreram quando a igreja era cúmplice do rei e se fazia com ele um só, acobertando inverdades e injustiças. Quando das perseguições, que tanto dizem temer os candidatos como argumento para representação política, é que se multiplicavam os sinais e maravilhas nas assembléias de Deus. 

A manifestação democrática somente se opera quando se coíbe a interferência do poder de autoridade em desfavor da liberdade de voto (Código Eleitoral, art. 237), garantindo-se ao cidadão o direito de escolher seu candidato sem o temor de que o exercício de tal opção lhe custe, por exemplo, a fidelidade que tributa a Deus e aos irmãos. 

Ao pastor, o cajado! Às ovelhas, bom trato! Ao cidadão, o direito do voto livre! À Casa de Deus, santidade! Ao parlamento, mulheres e homens de bem!


Nenhum comentário:

Postar um comentário